Opinião: The Handmaid's Tale ou A História de uma Serva é baseada no livro homónimo de Margaret Atwood. É uma série que vai provocar um conjunto de emoções que vão desde o choque, à revolta, passando pela indignação e pela náusea, apresentando uns Estados Unidos da América distópico - agora chamados de A República de Gilead - onde, após uma vaga de infertilidade e uma diminuição da taxa de natalidade, as mulheres férteis - as Handmaid's - são obrigadas a conceber os filhos e filhas das famílias mais ricas e influentes do governo, servindo sobretudo como concubinas. 

(Continua) 

Esta é uma ideia aterradora de um mundo liderado por uma religião extremista que não permite a existência de feministas, de homossexuais sendo que a própria ideia de alguém capaz de amar outra pessoa do mesmo sexo é considerado uma "traição ao género" e a série faz uma óptima representação da repressão, do medo, da frustração e da impotência face aos acontecimentos que eram apresentados aos espectadores, acrescentando frases como "Blessed be the fruit" ou "Under is eye" como formas de saudação para demonstrar o poder deste regime estranho sobre o país - muito à semelhança do que aconteceu na Alemanha com o "Heil Hitler". A série mostra também a influência ou o poder que uma frase de origem "bíblica" ou de que uma história pode ter na criação de todo um regime quando tirado do seu contexto. 
The Handmaid's Tale é uma série que provoca pensamento e que provoca a revolta. Tenho vinte cinco anos de idade e nunca vi algo que me deixasse com um sentimento de revolta e de nojo tão grande.  Fosse através da eliminação da personalidade, do slut shamming, da culpabilização das vitimas pelas agressões sexuais, pelo silêncio e pela opressão da mulher ou pela aceitação, muita das vezes dúbia por parte do ciclo de personagens que rodeia a protagonista Offred, interpretado por Elisabeth Moss. Uma aceitação que faz com que frases como: we gave them more that what they can handled - se tornem comuns
Os responsáveis pelo visual e pela estruturação da série fizeram um trabalho brilhante na apresentação da cinematografia, fosse através das cores, da banda sonora com nomes conhecidos de um passado proibido, da voz-off e rebelde da protagonista, do uso do slow-motion para evidenciar os momentos mais chocantes, ou mesmo através dos flashbacks de um passado familiar e que acaba por ser simultaneamente um alívio do mundo constrito de Offred mas também uma ideia aterradora porque June, o verdadeiro nome da Offred, tem uma vida que em nada é diferente daquela que levamos no dia-a-dia com referências que nos arrastam para a realidade de que talvez - apenas talvez, - haja uma realidade onde o nosso mundo é realmente como Margaret Atwood retratou. E, a simples ideia de que o país mudou sem que a população se apercebesse ou sequer tivesse qualquer controlo, foi o mais assustador. 
The Handmaid's Tale não é uma série fácil de ver. Há momentos perturbadores que mexeram com o mais profundo do meu ser e, enquanto espectadora há o sentimento constante de que algo está profundamente errado, seja na concepção de uma criança, seja no nascimento dessa criança, seja na forma como a política se intercala directamente com a vida familiar, seja na ausência de compaixão e de simpatia para com o outro. Há uma sensação de perda de personalidade, do sentido do eu, de desumanização que nunca vi em nenhuma série e houve momentos em que a perplexidade simplesmente venceu. 
É uma série emocionalmente retorcida mas que possui um papel fundamental nos dias de hoje onde o mundo parece rodeado de racismo, homofobia e machismo. É uma série que ganha pela diversidade do elenco, pela mistura de realidades e pelo poder feminino e que termina com uma sensação de empowerment. Elisabeth Moss foi pura e simplesmente fabulosa, conseguindo transmitir todo um conjunto de emoções através de um olhar ou de uma expressão, fundamental para uma interpretação que exige contenção e, simultaneamente rebelião. É uma série que merece ser vista por homens e mulheres. The Handmaid's Tale suscita o debate e, ele deve existir para que possamos impedir que uma realidade destas aconteça. 

I was a sleep before. Now I'm awake to the world.


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